Salário Mínimo Nacional em 2026: o que realmente recebe ao fim do mês com os 920€
27/04/2026
Resumo — Pontos-chave
- A retribuição mínima mensal garantida (RMMG) fixa-se em 920€ brutos no Continente em 2026, o que corresponde a 818,80€ líquidos após o desconto de 11% para a Segurança Social.
- Açores (966€) e Madeira (968€) mantêm valores regionais superiores ao Continente.
- Para a entidade empregadora, cada trabalhador ao SMN custa cerca de 14 094€ anuais, já com TSU e subsídios incluídos.
Quanto é o salário mínimo em 2026: 920€ brutos no Continente
A atualização chegou ao Diário da República a 29 de dezembro de 2025. O Decreto-Lei n.º 139/2025 fixa a RMMG em 920 euros a partir de 1 de janeiro de 2026, mais 50 euros face aos 870 euros que estavam em vigor em 2025. Em percentagem, fala-se de um aumento de 5,7% acima da inflação esperada para o ano, o que representa ganho real de poder de compra para quem recebe o mínimo.
Quem vive nas Regiões Autónomas tem valores próprios, superiores ao Continente pela diferença de custo de vida e transportes:
Região | RMMG 2026 (bruto) | Diploma |
Portugal Continental | 920,00€ | DL n.º 139/2025 |
Região Autónoma dos Açores | 966,00€ | DL Regional |
Região Autónoma da Madeira | 968,00€ | DL Regional |
Administração Pública (base remuneratória) | 934,99€ | DL n.º 29-A/2026, de 30 de janeiro |
Note-se um detalhe que muitos esquecem: o salário é pago 14 vezes por ano em Portugal (12 meses + subsídio de férias + subsídio de Natal). Os 920 euros anuais × 14 dão um rendimento bruto de 12 880€, que é precisamente o valor do mínimo de existência do IRS em 2026 não é coincidência, como veremos adiante.
Do bruto ao líquido: como são calculados os 818,80€
O valor que chega à conta do trabalhador não é o valor do contrato. No caso do SMN, a equação é simples e tem apenas um desconto obrigatório. Quem percebe a lógica aqui percebe também por que razão negociar ao bruto é sempre pior do que raciocinar ao líquido.
Desconto para a Segurança Social: 11%
O trabalhador por conta de outrem contribui com 11% do salário bruto para a Segurança Social. Sobre 920€, o desconto é de 101,20€. Esta contribuição financia a reforma, o subsídio de desemprego, a baixa médica e a parentalidade é rendimento diferido, não um imposto perdido.
Retenção de IRS: zero para quem recebe o SMN
Em 2026, quem recebe o salário mínimo não faz qualquer retenção na fonte de IRS. A razão chama-se mínimo de existência: a lei garante que um rendimento anual até 12 880€ fica totalmente isento. Como 920€ × 14 = 12 880€, o SMN está exatamente no limite da isenção.
Resultado prático: 920€ − 101,20€ = 818,80€ líquidos. Face a 2025 (774,30€ líquidos), o trabalhador ganha mais 44,50€ por mês ou seja, um reforço anual de cerca de 623€. Para quem quiser aprofundar a mecânica de cálculo, o nosso guia do salário líquido em 2026 detalha cada passo.
Simulação: o que Mariana leva para casa em 2026
Para sair da abstração, imagine-se Mariana, 28 anos, solteira, sem dependentes, a trabalhar num estabelecimento de restauração em Lisboa ao salário mínimo. A empresa paga o subsídio de refeição em cartão ao valor máximo isento (10,46€/dia, 22 dias úteis). Eis o que aparece no recibo de vencimento num mês típico:
Componente | Valor | Observações |
Salário bruto | 920,00€ | RMMG Continente |
Desconto Segurança Social (11%) | −101,20€ | Trabalhador |
Retenção IRS | 0,00€ | Dispensado pelo mínimo de existência |
Salário líquido | 818,80€ | |
Subsídio de alimentação em cartão | +230,12€ | 10,46€ × 22 dias totalmente isento |
Total disponível no mês | 1 048,92€ | Valor efetivo na conta |
Se a empresa pagasse o subsídio em dinheiro em vez de cartão, o limite isento cairia para 6,15€/dia. Uma diferença de 4,31€ por dia, multiplicada por 22 dias e 11 meses, representa cerca de 1 043€ por ano a menos de poder de compra sem qualquer aumento salarial envolvido. Na nossa experiência de recrutamento em finanças, é um dos benefícios mais subvalorizados pelos candidatos no momento da negociação.
O custo real para a empresa: a fatura que está sempre escondida
Do lado da entidade empregadora, a conta é bem diferente. Os 920€ contratuais são apenas a parte visível. Ao valor base, a empresa adiciona a Taxa Social Única (TSU) de 23,75% que não sai do bolso do trabalhador , o subsídio de férias e o subsídio de Natal, ambos obrigatórios e equivalentes a um mês de retribuição cada.
Rubrica anual | Cálculo | Custo para a empresa |
Salário base × 14 meses | 920€ × 14 | 12 880,00€ |
TSU patronal (23,75%) | 12 880€ × 23,75% | 3 059,00€ |
Seguro de acidentes de trabalho (estimativa 1%) | 12 880€ × 1% | 128,80€ |
Subsídio de alimentação em cartão (11 meses × 22 dias × 10,46€) | 2 531,32€ | |
Custo total anual | 18 599,12€ |
Traduzindo: quem ganha 920€ brutos custa à empresa cerca de 1 550€ por mês a preços cheios. A diferença entre o líquido recebido (818,80€) e o custo empregador (≈1 550€) é de mais de 700€ quase o dobro do salário líquido. É aqui que reside o grande desafio das PME portuguesas: cada euro a mais de SMN dispara o custo laboral muito além do que o trabalhador vê no recibo. Para funções financeiras e contabilísticas com salários acima do mínimo, as nossas simulações de retenção 2026 dão a ordem de grandeza real.
Subsídios de férias e de Natal: o que muda quando o SMN sobe
Quando o salário base sobe, sobem também os dois subsídios anuais. O artigo 264.º do Código do Trabalho obriga ao pagamento de um subsídio de férias igual à retribuição base mais prestações retributivas; o artigo 263.º faz o mesmo para o subsídio de Natal, a pagar até 15 de dezembro. No SMN, isto significa mais 920€ em cada um dos dois subsídios 1 840€ adicionais por ano, já sujeitos ao desconto de Segurança Social mas não a IRS.
Opção frequente no privado: pagar os subsídios em duodécimos (50% ou 100% diluídos nos 12 meses). Requer sempre acordo escrito e não altera o valor total anual. A nossa análise detalhada sobre o subsídio de férias explica os diferentes cenários.
Portugal no ranking europeu: 12.º lugar entre 22 países com SMN legal
O Eurostat utiliza uma metodologia diferente para comparar salários mínimos na União Europeia: divide o valor anual (nos países com 14 meses, como Portugal) por 12. Daí que o valor atribuído a Portugal no ranking europeu seja de 1 073€ mensais e não 920€. A seleção seguinte mostra como nos posicionamos em janeiro de 2026:
Posição UE | País | SMN mensal 2026 (Eurostat, 12 meses) |
1 | Luxemburgo | 2 704€ |
2 | Irlanda | 2 391€ |
3 | Alemanha | 2 343€ |
6 | França | 1 823€ |
8 | Espanha | 1 381€ |
12 | Portugal | 1 073€ |
15 | Grécia | 1 027€ |
22 | Bulgária | 620€ |
Portugal fica no pelotão médio da UE, abaixo dos vizinhos Espanha e Eslovénia, mas significativamente acima dos países de Leste. Em paridade de poder de compra (PPS), a posição relativa melhora ligeiramente, porque o custo de vida em Portugal ainda é inferior ao de Espanha e França para habitação e alimentação. É precisamente este diferencial que continua a atrair empresas internacionais a estabelecerem centros de serviços partilhados em Lisboa e no Porto.
Exceções ao SMN: quem pode legalmente receber menos
O artigo 275.º do Código do Trabalho prevê duas situações em que a remuneração pode ser inferior ao SMN, desde que a diferença seja formalmente documentada:
Praticantes, aprendizes, estagiários e formandos em situação de formação certificada: redução máxima de 20% sobre o SMN durante, no máximo, 1 ano (ou 6 meses se o trabalhador tiver curso técnico-profissional qualificante). Em 2026, isto corresponde a um chão de 736€ brutos.
Trabalhadores com capacidade de trabalho reduzida: a redução é proporcional à diferença entre a capacidade plena e o coeficiente efetivo (apenas se superior a 10%), com limite máximo de 50%.
Fora destes dois casos, pagar abaixo do SMN é contraordenação muito grave. A fiscalização cabe à Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT), que pode ser contactada diretamente pelo trabalhador através da sua linha de atendimento.
Trajetória 2026-2029: o caminho até aos 1 100€
O Acordo Tripartido assinado em outubro de 2024 em Concertação Social entre o Governo, a UGT e as quatro confederações patronais define uma trajetória clara: +50€ por ano até 2028. O programa do atual Governo vai mais longe e aponta os 1 100€ para 2029. A tabela prospectiva é esta:
Ano | RMMG prevista | Variação anual |
2025 | 870€ | +6,1% |
2026 | 920€ | +5,7% |
2027 | 970€ | +5,4% |
2028 | 1 020€ | +5,1% |
2029 (meta de programa) | 1 100€ | +7,8% |
A nossa leitura enquanto recrutadores em finanças: este ritmo de compressão salarial pela base vai continuar a empurrar os salários de referência para cima, sobretudo nas funções de payroll, contabilidade júnior e administrativo-financeiro. Em 2026, um assistente de contabilidade recém-formado em Lisboa já não se contrata abaixo de 1 100-1 200€ brutos caso contrário, o diferencial face ao SMN fica demasiado curto para o esforço académico exigido.
Perguntas frequentes sobre o salário mínimo em 2026
O salário mínimo pago a part-time é proporcional?
Sim. Um trabalhador a 50% (20 horas/semana) tem direito a 460€ brutos mensais, com Segurança Social proporcional. O limite de isenção de IRS é recalculado sobre o rendimento anual real.
Qual é o valor horário do SMN em 2026?
Aplicando a fórmula do artigo 271.º do CT (Rm × 12 ÷ 52 × n), com n=40 horas: 920 × 12 ÷ (52 × 40) = 5,31€/hora no Continente.
Os 920€ incluem subsídio de alimentação e prémios?
Não. O SMN refere-se exclusivamente à retribuição base. Subsídio de refeição, ajudas de custo, comissões, prémios e horas extraordinárias são sempre valores adicionais ao SMN, nunca incluídos.
O que acontece se a empresa não atualizar o salário em janeiro?
A atualização é automática por força de lei. Mesmo que o contrato tenha um valor antigo, o empregador é obrigado a pagar os 920€ a partir do primeiro dia útil de janeiro. Pagamentos inferiores constituem retribuição em dívida, com juros de mora e coima à empresa.
Um trabalhador ao SMN tem de entregar declaração de IRS?
Está dispensado de retenção mensal, mas pode entregar declaração para reaver deduções específicas (saúde, educação, faturas com NIF). Na maioria dos casos, a entrega é facultativa e sem imposto a pagar.
O aumento do SMN afeta quem já ganha acima do mínimo?
Não de forma automática. A lei só obriga à atualização de quem está a ganhar exatamente o SMN. Contudo, muitas convenções coletivas indexam tabelas salariais ao SMN, gerando efeito cascata especialmente na restauração, comércio e construção.
Recursos & Documentos Úteis
Fontes
Diário da República (DL n.º 139/2025 de 29.12.2025 e DL n.º 29-A/2026 de 30.01.2026); Código do Trabalho (artigos 263.º, 264.º, 271.º, 273.º, 275.º); Portaria n.º 51-B/2026/1; Eurostat (earn_mw_cur, janeiro 2026); DGAEP Evolução da RMMG; AHRESP; Banco de Portugal Boletim Económico. Artigo atualizado em abril de 2026.