Entrevista de avaliação de competências: como funciona, como é pontuada e como se preparar

Publicado pela Fed Finance em Conselhos de emprego
12/10/2026
Entrevista de avaliação de competências: como funciona, como é pontuada e como se preparar

Resumo: pontos essenciais

  • A entrevista de avaliação de competências procura factos: o que o candidato fez numa situação real, não o que diz que faria.
  • Na função pública, é um método de seleção previsto na Portaria n.º 233/2022, pontuado de 0 a 20 valores com uma grelha de níveis (20, 16, 12, 8, 4).
  • O candidato prepara-se com 5 a 6 exemplos estruturados pelo método STAR, cada um ligado a uma competência do perfil da função.

Uma entrevista de avaliação de competências parte de uma ideia simples: o comportamento passado é o melhor indicador do comportamento futuro. O entrevistador não pergunta "é bom a trabalhar em equipa?". Pede um caso concreto, com datas, pessoas, decisões e resultado.

O que é uma entrevista de avaliação de competências

É uma entrevista estruturada em que cada pergunta corresponde a uma competência do perfil do cargo. O entrevistador recolhe exemplos de comportamentos profissionais e classifica-os numa grelha definida antes da entrevista. Todos os candidatos respondem às mesmas perguntas, o que permite comparar respostas e não impressões.

As competências avaliadas são sobretudo comportamentais: comunicação, resolução de problemas, orientação para resultados, trabalho em equipa, negociação. As competências técnicas medem-se melhor com provas de conhecimentos ou casos práticos. Para a aplicação do método no recrutamento em finanças, veja o nosso artigo sobre a entrevista por competências na área financeira.

Pergunta tradicionalPergunta por competênciasO que muda na avaliação
Quais são os seus pontos fortes?Fale-me de uma situação em que a sua análise mudou uma decisão da chefia.Passa-se de uma autodescrição para um facto verificável.
Como reage sob pressão?Descreva o último fecho de mês em que um prazo esteve em risco. O que fez?O candidato tem de mostrar ações concretas e um resultado.
Gosta de trabalhar em equipa?Conte-me um desacordo com um colega e como o resolveu.Revela o comportamento real em conflito, não uma intenção.
O que faria se um cliente reclamasse?Qual foi a reclamação mais difícil que tratou?Uma pergunta hipotética mede o discurso; a comportamental mede a prática.

Para entrevistadores: do guião à pontuação

A qualidade de uma entrevista de avaliação de competências decide-se antes de o candidato entrar na sala. Sem perfil de competências e sem grelha, o entrevistador volta a decidir por intuição.

Fase 1: definir o perfil da função

Analise o cargo e escolha 4 a 6 competências essenciais. Para cada competência, escreva 2 ou 3 indicadores observáveis. Exemplo para "resolução de problemas" num técnico de contabilidade: identifica a origem de uma diferença, propõe uma correção, verifica o impacto noutras contas.

Fase 2: construir o guião de entrevista

  1. Uma pergunta principal por competência, aberta e centrada no passado.
  2. Duas ou três perguntas de aprofundamento: "o que fez exatamente?", "quem mais estava envolvido?", "qual foi o resultado em números?".
  3. A mesma ordem e a mesma formulação para todos os candidatos.
  4. Uma grelha com a descrição de cada nível de pontuação, preenchida durante ou logo após a entrevista.

Fase 3: conduzir a entrevista

Explique o formato ao candidato no início. Muitos não conhecem o método e respondem com generalidades. Quando a resposta fica no "nós", peça o "eu": qual foi o seu papel? Tome notas literais das ações descritas, sem as interpretar.

Fase 4: avaliar com uma grelha

A grelha abaixo segue a escala usada na Administração Pública portuguesa, onde cada competência é classificada num de cinco níveis. A DGERT publicou a sua metodologia em 2025 com estes valores e com cinco competências ponderadas a 20 % cada.

NívelPontuaçãoIndicador comportamental (exemplo: comunicação)
Elevado20Exemplos claros e completos; adapta a mensagem ao interlocutor e mostra o efeito obtido.
Bom16Exemplos concretos com ações próprias identificadas; resultado pouco quantificado.
Suficiente12Exemplo pertinente mas incompleto; mistura ações próprias com as da equipa.
Reduzido8Respostas genéricas; poucos factos verificáveis.
Insuficiente4Sem exemplo ou exemplo sem relação com a competência.

Simulação. Um candidato a técnico superior obtém Bom em orientação para o serviço público (16), Elevado em orientação para a colaboração (20), Suficiente em gestão do conhecimento (12), Bom em comunicação (16) e Bom em negociação e influência (16). Com ponderações iguais, a classificação é (16 + 20 + 12 + 16 + 16) / 5 = 16,0 valores. Se o mesmo candidato tivesse dado um exemplo vago em comunicação (Suficiente, 12), descia para 15,2. Uma única resposta mal preparada custa quase um valor.

Erros frequentes do entrevistador

  • Aceitar respostas hipotéticas ("eu faria...") como se fossem factos.
  • Deixar a primeira impressão contaminar todas as competências (efeito de halo).
  • Preencher a grelha no fim do dia, de memória.
  • Perguntar sobre a vida privada, a saúde ou planos de gravidez. O artigo 17.º do Código do Trabalho só admite estas informações quando são estritamente necessárias para avaliar a aptidão para o posto, com fundamentação por escrito.

Para candidatos: preparar respostas com o método STAR

Quem improvisa responde em generalidades, e generalidades pontuam no nível Reduzido.

Identificar as competências que vão ser avaliadas

Leia o anúncio e a descrição de funções. Sublinhe os verbos e os comportamentos pedidos: analisar, negociar, coordenar, cumprir prazos. Num concurso público, o aviso de abertura indica os métodos de seleção, e as atas do júri, quando publicadas, mostram as competências e a grelha. Prepare um exemplo para cada competência e um de reserva.

Estruturar cada exemplo

  • Situação: contexto em duas frases (empresa, período, problema).
  • Tarefa: a sua responsabilidade concreta.
  • Ação: o que fez, na primeira pessoa, por etapas. É a parte que mais pesa.
  • Resultado: o efeito medido e o que aprendeu.

O método CAR (Contexto, Ação, Resultado) é uma versão curta do mesmo princípio, útil quando o tempo de resposta é limitado.

Exemplo de resposta. Pergunta: "Descreva uma situação em que encontrou um erro com impacto financeiro." Resposta estruturada: "No fecho de março, a reconciliação bancária apresentava uma diferença de 18 400 euros (situação). Eu era responsável pelas reconciliações de três contas (tarefa). Cruzei os extratos com os lançamentos, encontrei um pagamento a fornecedor registado duas vezes, pedi a anulação e alterei o controlo para bloquear faturas com o mesmo número e NIF (ação). A diferença foi corrigida antes do reporte e o erro não voltou a acontecer nos meses seguintes (resultado)."

Perguntas frequentes numa entrevista de competências

  • Fale-me de um objetivo que não atingiu. O que fez a seguir?
  • Descreva uma decisão que tomou sem toda a informação de que precisava.
  • Conte uma situação em que teve de convencer alguém com mais autoridade do que a sua.
  • Lembre-se de um conflito numa equipa. Qual foi o seu papel?

Se não for selecionado, peça feedback. Na função pública, a fundamentação da nota consta das atas e da grelha individual.

Entrevista de avaliação de competências na Administração Pública

No setor público, a entrevista de avaliação de competências é um método de seleção com regras fixadas por lei. O júri não tem liberdade para mudar o formato a meio de um concurso.

Enquadramento legal

  • Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas (Lei n.º 35/2014), artigo 36.º: para vínculo por tempo indeterminado, os métodos obrigatórios são a prova de conhecimentos e a avaliação psicológica. Para candidatos que já exercem as funções do posto, aplicam-se a avaliação curricular e a entrevista de avaliação de competências, salvo se optarem pelos outros métodos. A entrevista pode também ser usada como método facultativo.
  • Portaria n.º 233/2022, de 9 de setembro: regula o procedimento concursal. Define a entrevista de avaliação de competências como o método que visa obter informações sobre comportamentos profissionais diretamente relacionados com as competências essenciais para o exercício da função. Os métodos são classificados numa escala de 0 a 20 valores.
  • Os municípios aplicam o mesmo regime aos seus procedimentos concursais.

Como decorre na prática

O júri aprova antes das entrevistas um guião e uma grelha de avaliação individual, registados em ata. Na metodologia publicada pela DGERT em 2025, a entrevista dura cerca de 20 a 30 minutos e avalia cinco competências: orientação para o serviço público, orientação para a colaboração, gestão do conhecimento, comunicação, e negociação e influência. Cada uma vale 20 % da nota.

Um conselho para quem concorre: procure as atas de concursos anteriores do mesmo organismo. Os guiões mudam pouco de um ano para o outro, e conhecer as competências avaliadas permite preparar exemplos à medida. Reunimos exemplos de perguntas em entrevista profissional para a função pública, e as mudanças na avaliação psicológica em testes psicotécnicos na função pública.

Na era digital: IA, vídeo-entrevistas e novas regras

A tecnologia já entrou na entrevista de avaliação de competências, sobretudo antes da conversa com o entrevistador. Plataformas de recrutamento fazem triagem de candidaturas, propõem perguntas, transcrevem vídeo-entrevistas assíncronas e sugerem pontuações.

O Regulamento Europeu da Inteligência Artificial (Regulamento (UE) 2024/1689) classifica como de risco elevado os sistemas usados no recrutamento e seleção, nomeadamente para analisar candidaturas e avaliar candidatos. Com o pacote "Digital Omnibus", a aplicação dessas obrigações foi adiada para 2 de dezembro de 2027 (estava prevista para 2 de agosto de 2026). Uma regra já está em vigor desde 2 de fevereiro de 2025: é proibido usar sistemas de reconhecimento de emoções no local de trabalho, salvo por razões médicas ou de segurança. Uma ferramenta que pretenda ler o entusiasmo ou a honestidade de um candidato pela expressão facial entra nesta proibição.

Uso da tecnologiaVantagemRisco a controlar
Transcrição e resumo da entrevistaNotas completas e comparáveisErros de transcrição; informação do candidato guardada sem prazo
Sugestão de pontuação por IARapidez em grandes volumesViés algorítmico herdado de dados antigos; decisão sem revisão humana
Vídeo-entrevista assíncronaFlexibilidade de horárioMenor possibilidade de aprofundar respostas
Análise de expressão facial ou de vozNenhuma validada para medir competênciasProibida para inferir emoções no trabalho desde fevereiro de 2025

A nossa posição: use a tecnologia para registar e organizar, não para decidir. A pontuação de uma entrevista de avaliação de competências deve ficar com quem ouviu o candidato e consegue justificar cada nível da grelha. O RGPD reforça este princípio quando limita decisões exclusivamente automatizadas com efeitos significativos para a pessoa.

Perguntas frequentes

Quanto tempo dura uma entrevista de avaliação de competências?

Entre 20 e 45 minutos, conforme o número de competências. Na metodologia da DGERT publicada em 2025, cerca de 20 a 30 minutos.

Posso usar exemplos da vida académica ou de voluntariado?

Sim, sobretudo em início de carreira. O que conta é a ação concreta e o resultado, não o contexto em que aconteceu.

Num concurso público, posso recusar a entrevista de avaliação de competências?

Quem já exerce as funções do posto pode afastá-la por escrito e optar pela prova de conhecimentos e pela avaliação psicológica, em vez da avaliação curricular e da entrevista.

A entrevista pode ser feita por videochamada?

Sim. No setor público, a Portaria n.º 233/2022 prevê que a convocatória indique a infraestrutura quando o método é realizado a distância. O método e a grelha são os mesmos; teste a ligação e a câmara antes.

Recursos e fontes oficiais